segunda-feira

OS ONÇAS PINTADAS

INTRODUÇÃO

Meu nome é Juan Lecaros, nasci e vivo até hoje num povoado localizado entre as cidades de Cobija e Riberalta, ao norte de La Paz, capital da Bolívia. Sou solteiro e minha profissão é pilotar pequenos aviões.
A história que vou narrar a vocês não poderia encontrar maior fidelidade em outra pessoa, já que fiz parte da mesma, e nela tive como atuação mudar o destino de um povo, um povo que já me esperava...

Os Onças Pintadas

Incrustada em meio 'a vastidão da floresta amazônica, existe um lugar que os nativos deram o nome de terra das onças pintadas, por causa da ocorrência de grande quantidade destes animais no lugar. Por capricho da natureza, uma grande clareira se formou no lugar e se tornou à morada de um povo que se estabelecera ali em tempos passados.
Altos, pele morena e cabelos lisos, características comuns entre os nativos da região, porém, por trajarem uma vestimenta feita com peles de onças, e possuírem os olhos claros como estes felinos, eles se tornaram conhecidos como os onças pintadas.
Era um povo respeitado e temido pelas tribos vizinhas. Seus guerreiros eram jovens valentes e hábeis lutadores, que defendiam com bravura suas terras em guerras contra tribos nômades que cobiçavam aquele lugar de caça farta e terra fértil para o plantio.
Nas histórias contadas pelos mais velhos em torno da grande fogueira, nenhuma narrativa documenta a invasão de outras terras, ou um ataque a outras tribos. A tribo nada cobiçava do que pertencia às outras, era alto suficiente na agricultura e na caça.
As tradições eram mantidas com rigor. A religião, a formação dos guerreiros, e as festas de agradecimento ao espírito pai, eram acontecimentos tão importantes que contavam com a participação de todos os membros da tribo.
Eram adoradores da lua, que diziam ser o espírito pai. Acreditavam que o espírito pai os protegia durante o sono, quando não estavam vigilantes e portanto suscetíveis aos perigos das sombras. Suas crenças diziam que o espírito pai recebia os espíritos de seus mortos e os distribuía no céu, em forma de estrelas. O céu para eles era uma grande aldeia de espíritos indígenas.
As cerimônias fúnebres eram realizadas a noite, e somente a família do morto e o feiticeiro da tribo podiam participar. O corpo era queimado pelos familiares, que clamavam ao espírito pai um acolhimento honroso para aquele espírito que subia para a grande aldeia em forma de fumaça.
O cultivo, a preparação da comida, o trabalho com o couro e as folhas de taboa, eram trabalho das mulheres jovens. Na velhice elas cuidavam da educação das crianças e ensinavam as jovens nos trabalhos artesanais.
Os jovens treinavam as lutas e o manuseio do arco e da lança, e eram responsáveis pela caça e defesa da aldeia, quando velhos, entravam para o conselho dos sábios, que tomava as decisões importantes e cuidava da paz dentro da aldeia.
As refeições eram comunitárias, toda a aldeia sentava em torno da grande fogueira onde se preparava a caça, o bejú, e a sopa de inhame ou cará, com ervas aromáticas abundantes na região.
A fartura de comida tornou a tribo um povo saudável.

O guerreiro

Grande chefe era o poder máximo na tribo, ditava as ordens e impunha as regras estabelecidas pelo conselho de sábios, sua preparação era construída ao longo do tempo, iniciando-se na infância com o aprendizado das artes da guerra, e das filosofias adquiridas junto ao conselho de sábios. Era um poder patriarcal...
Os guerreiros fortaleciam os corpos com exercícios físicos e lutas corporais, treinavam o arco e flecha, o manejo de lanças, e participavam de jogos que desenvolviam força e agilidade. Na guerra não faziam prisioneiros. Na batalha em defesa de suas terras a cabeça não pensava, a força e agilidade eram usadas para sucessivos golpes que sufocava o inimigo, deixando-os com poucas chances de revide.
Em sua formação o guerreiro era forjado na aventura da procura, do encontro, e do abate de uma onça pintada. O jovem índio que deixava a aldeia em busca de seu ideal jamais voltava sem cumprir sua missão, seria motivo de vergonha para a tribo. Alguns jamais retornaram. Quando voltava para a aldeia carregando sua caça, o caçador dirigia-se para a tenda de grande chefe e apresentava seu fardo. Iniciava-se então a cerimônia de reconhecimento como guerreiro por toda a tribo, e o caçador, agora guerreiro, passava a ostentar o couro do animal como vestimenta.

Olhos de coruja e Espírito que fala

O nome de cada membro da tribo unia as características do nativo com os elementos da natureza, mas a elite era denominada de acordo com a sua função dentro da sociedade. No nascimento, olhos de coruja foi o nome escolhido por grande chefe para seu filho e futuro sucessor, que carregaria este nome até suceder a seu pai. O menino tinha olhos grandes e observador, como a ave que lhe emprestara o nome, era curioso, aprendia com facilidade, e trocava as horas em que poderia estar se divertindo com outros meninos para conversar e aprender com os velhos, membros do conselho de sábios.
Olhos de coruja alimentava o sonho de aprender os segredos da feitiçaria e das curas realizadas por espírito que fala, mas isto era proibido.
Espírito que fala era o feiticeiro e curandeiro da tribo, era o mediador entre os índios e o espírito pai, somente ele falava com os espíritos, e só ele tinha o poder de curar os doentes da tribo com feitiçarias e remédios manipulados com plantas da floresta. No quarto de lua anterior espírito que fala recebeu uma mensagem do espírito pai, através de um sonho, e agora aguardava o segundo, onde seriam confirmadas suas interpretações, e só então transmitiria para grande chefe.
O sonho esperado não tardou.

O segundo sonho.

Espírito que fala acordou numa madrugada chuvosa, a ansiedade escravizou seu sono, e agora era refém de sua mente pois tivera o segundo sonho!
O respeito pela privacidade, a responsabilidade de transmitir o que para ele mudaria o destino de seu povo, e a necessidade de pensar e repensar a história da tribo, foram dilemas que refrearam sua decisão de correr para a tenda de grande chefe e anunciar a mensagem recebida pela segunda vez. As horas embaladas em dúvidas e ansiedades se tornaram longas, tanto quanto uma caçada no inverno, quando os animais se refugiam para procriarem. Quando o dia amanheceu, as nuvens agora vazias desapareceram com a escuridão da noite. Um enorme sol se projetou por sobre a imensidão verde da floresta anunciando um dia especial, um dia de novidades.
Espírito que fala caminhou em direção 'a tenda de grande chefe, cumprimentou olhos de coruja que alimentava um sagüi com bananas e solicitou ao menino que anunciasse sua presença para seu pai. Grande chefe apareceu acompanhado de sua mulher, convidou-o a entrar na tenda e o interrogou: _Tivestes o segundo sonho?
O velho curandeiro confirmou com um movimento de cabeça, e depois de aceitar a tapioca embalada em folha de inhame, começou a narrar o que agora era a confirmação da primeira mensagem. Quando terminou sua narrativa, percebeu que um sorriso brincava nos lábios de grande chefe que disse:
_ Precisamos convocar o conselho!
O feiticeiro concordou e ambos se dirigiram para a tenda de barulho de trovão, responsável pelas convocações de reuniões da tribo. A maneira como fora batido o tambor, deu a entender a todos da aldeia que somente o conselho dos sábios deveriam comparecer na grande tenda. Quando todos estavam presentes, grande chefe pediu para espírito que fala comunicar a mensagem dos espíritos da grande aldeia, contida no segundo sonho, e o velho feiticeiro narrou o que sonhara, e pela segunda vez, percebeu a importância que tinha para a tribo o que acabara de dizer, os velhos se entreolhavam e sorriam.
O tambor de barulho de trovão mandou para os ares uma nova mensagem naquele dia, agora, toda a tribo estava sendo convocada para uma reunião.
Grande chefe olhou para seu povo em torno da grande fogueira e sentiu-se feliz por fazer parte daquele momento tão importante, onde homens, mulheres e crianças aguardavam em silencio a revelação de uma nova era para os onças pintadas. Depois de autorizar o velho curandeiro a fazer o seu relato, grande chefe ocupou seu lugar junto ao conselho de sábios.
Espírito que fala se concentrou em suas lembranças, e falou sobre a mensagem trazida por seu sonho. No sonho ele avistava um grande pássaro enviado pelo espírito pai, que descia da grande aldeia e pousava entre os onças pintadas. Aos poucos, o grande pássaro transportava os membros da tribo para a grande aldeia, onde eles encontrariam todos os que lá foram morar, e assim, viveriam para sempre juntos como uma grande nação.
Quando concluiu, o velho feiticeiro sentiu a felicidade de um espírito em paz, a mensagem transmitida por ele transformou os dias seguintes da aldeia numa grande festa...

O grande pássaro

A viagem seria perigosa, não bastasse fugir do controle de tráfego aéreo brasileiro, o tempo estava péssimo, com muita umidade no ar, sinais claros de que chovia muito na área de rota normal. O destino da viagem era Bauru, uma cidade do interior de São Paulo.
Não era minha primeira viagem até este lugar, e por isto conhecia bem a rota normal. Atravessaria a fronteira mais ou menos no centro da extensão do rio Guaporé, voando ao sul da floresta amazônica, depois mudaria o curso para o sentido norte-sul do território brasileiro, voando próximo a fronteira, atravessaria Mato Grosso do Norte, Mato Grosso do Sul, chegando até Campo Mourão no Paraná, daí, para evitar voar sobre São Paulo mudaria o curso num ângulo de noventa graus, fazendo um paralelo com o rio Paraíba e, chegando finalmente ao destino da viagem.

Tentei conversar com meu contratador, falei do temor que tinha em fazer esta viagem, a fronteira estava muito vigiada, e se acaso eu tivesse que mudar a rota o mau tempo seria um complicador, sem visibilidade eu não teria a orientação dos rios, das cidades, e até mesmo das montanhas. O vôo teria que ser baixo para evitar sinais que seriam captados por radares, e voando baixo, os instrumentos da aeronave pouco ajudaria. Um piloto precisa ter muita experiência de vôo nesta região para poder usar os pontos de referência.
O contratador entendeu meus temores e concordou com os riscos, porém disse que o cliente era muito exigente e pedia urgência na entrega da mercadoria. Sem outra alternativa dirigi-me para o barracão onde meu co-piloto, um paraguaio beberrão cochilava, e anunciei a viagem. Juntos taxiamos o pequeno e robusto bimotor deixando-o no ponto de levantar vôo. A viagem estava marcada para as 10 horas da noite, se tudo terminasse bem, o cliente estaria recebendo a mercadoria no começo da madrugada.
No horário combinado, eu e o co-piloto Gonzáles ocupávamos nossos lugares aguardando a autorização de vôo que viria pelo rádio. Fiz uma oração em silêncio pedindo proteção a Deus, e para aliviar a tensão brinquei com Gonzáles:
_ Amigão, agora é só nós dois! Ele sorriu e disse que éramos três, mostrando uma garrafa de whisky paraguaio.
A autorização veio acompanhada de um desejo de "boa viagem". Liguei os motores para o aquecimento, e a seguir coloquei o avião em movimento. Após a decolagem recolhi o trem de pouso, e enquanto ganhávamos altura checava os instrumentos. Gonzáles assoviava uma canção guarani...
Sobrevoamos por sobre o rio e entramos em território brasileiro, tudo corria bem, mas antes de nos aproximarmos do ponto de mudança da rota, a visibilidade tornou-se nula, e fomos obrigados a ganhar altura para fugir da zona de neblina, e com isso, corremos o risco de sermos detectados pelos radares brasileiros.
Meu co-piloto estava em silêncio, talvez perdido em alguma aventura criada por eflúvios etílicos emanados pela garrafa que agora descansava ao lado de seus pés. Por alguns instantes comecei a divagar sobre a necessidade de ter um trabalho dentro da legalidade, pilotar um avião comercial, ou até mesmo de passageiro, ajudado por instrumentos de vôo e torre de controle, mas infelizmente eu estava na contramão de meus sonhos, tinha um ótimo salário, coisa que eu não conseguiria num trabalho honesto, mas não tinha nenhuma segurança.
Estávamos ainda envolvidos em nossos pensamentos quando ouvimos uma mensagem no rádio dita em português:
_ Senhores tripulantes da aeronave prefixo---, vocês estão sobrevoando o território brasileiro em condições desfavoráveis de tempo, por favor, voem em direção ao aeroporto de Cuiabá, localizado 'a leste de sua rota.
Pronto! Fomos descobertos, só restava nos entregar e perder a carga para depois apodrecer numa prisão, ou tentar uma fuga, e esta somente seria possível se rumássemos para o norte, em direção a zona morta, área central da floresta, então estaríamos isolados do mundo, apenas com um rádio que poderia ou não funcionar. Olhei para Gonzáles esperando por uma solução, depois de beber um grande gole e enxugar a boca com o dorso da mão ele falou:
_ Se entregar nunca! Se formos presos nunca mais seremos libertados, e se um dia conseguirmos nossa liberdade, nosso contratador certamente nos matará. Estava decidido, rumaríamos para o norte, do rádio veio uma ameaça:
_ Tripulantes da aeronave prefixo---, mudem a rota para a determinada agora, isto é uma ordem!
Manobrei em direção contrária a de nosso destino, voando em direção a zona morta, e sabedor de que seríamos seguidos baixei para a zona de neblina, pois ela ajudaria na fuga. O tempo perdeu o significado pra nós, a única coisa que contava naquele momento era fugir, o mais longe possível, enquanto houvesse combustível no tanque. Continuamos a fuga em direção ao norte, o rádio permanecia mudo, talvez nossos perseguidores tenham desistido. Eu não sabia em que lugar da floresta estávamos, mas sabia que o combustível não seria suficiente para uma retomada de nosso destino, novamente recorri a Gonzáles. Pensativo meu amigo pareceu analisar nossa situação, bebeu mais um gole da garrafa que agora estava pela metade e disse:
_ Vamos tentar usar o rádio e explicar a situação para o contratador, mesmo que nossa comunicação seja interceptada, ele ao menos saberá o que está acontecendo. Concordei com ele, e na primeira tentativa consegui o retorno, mas não consegui falar o suficiente para solicitar socorro, do outro lado, uma voz que denotava furor apenas berrou:
__Vocês estão loucos? Eu não conheço vocês! Se estão com problemas, fodam-se!. Desliguei o rádio e perguntei a meu amigo se ele tinha alguma idéia do que deveríamos fazer.
_ Perdidos por um, perdidos por dez! Filosofou o paraguaio, _ vamos em frente, talvez o combustível dê para chegarmos em Manaus, naquela região existem muitos campos de pousos clandestinos de traficantes brasileiros e colombianos.
Já era de madrugada quando, para aumentar ainda mais nossos problemas uma tempestade desabou sobre nós, precisávamos com urgência de um campo de pouso, ou seria nosso fim. No escuro pensei ter visto uma clareira, o que foi confirmado por meu co-piloto, então mergulhei o avião , Gonzáles cruzou os dedos, as rodas tocaram o solo e para nosso alívio o terreno era firme e regular.
A velocidade ainda era alta quando passamos por um aclive, e ao descê-lo, avistamos algo como uma miragem surgida do nada, uma aldeia de índios. Sem tempo para raciocinar joguei o avião para o lado esquerdo da pista improvisada, indo de encontro 'as arvores.

Enviados do Espírito Pai

Dois sons, meu coração batendo e o zumbido de insetos. Um calor úmido sufocava minha garganta, mas eu não sentia dores, aliás, eu não me sentia na posse de um corpo para poder senti-las. Minha mente lutava para revelar uma realidade escondida entre a razão e a ilusão. Meus olhos procurando por luz avistou o espectro confuso do que parecia ser um rosto, com olhos grandes, que se tornaram maiores ao me verem acordado, olhos de menino, que rapidamente correu para longe de minha visão.
As lembranças retornavam numa espécie de mosaico, onde as ligações entre os acontecimentos passados e atuais se transformavam numa procura pelo entendimento. Ouvi sons , o menino chamou por alguém, e percebendo que entrariam onde eu estava fechei os olhos para evitar a claridade, mas senti a presença deles e ouvi que falavam, baixo, numa linguagem que eu nada entendia. Aos poucos fui abrindo meus olhos tentando vencer a luz, alguém chamou por meu nome:
_ Juan, hei amigão, você está vivo, venceu mais uma! Demorei em acreditar que era meu amigo Gonzáles, um raio de esperança invadiu meu cérebro, ele estava vivo, então tudo era possível! Gonzáles falou do acidente, o avião bateu em uma árvore e ele sofrera ferimentos leves e muitos arranhões, mas eu levei a pior, quebrei várias costelas e a perna esquerda, na altura da coxa.
Com o passar dos dias, e graças as beberagem que me davam para tomar, meu corpo começou a reagir. Eu sentia muito sono, meu coração ás vezes disparava e meu corpo suava em bicas, então começavam os pesadelos, mesmo acordado eu tinha pesadelos.
O avião sofreu avarias na asa e em um dos motores, parte dos instrumentos estavam danificados, o rádio não funcionava, mas Gonzáles acreditava que poderia consertá-lo.
Meu amigo disse que se comunicava com os nativos através de sinais e desenhos que eles próprios começaram a traçar no chão.
Um mês contado por quatro luas se passaram até eu conseguir sair da tenda e caminhar sem ajuda, porém mancava da perna fraturada.
O menino que foi minha primeira visão ao acordar da morte se chamava olhos de coruja, e era filho do que parecia ser o cacique da tribo. Não se desgrudava de mim, achei isto bom, tinha companhia o tempo todo e aprendia com ele muita coisa sobre a tribo, era muito inteligente, eu sentia prazer em me comunicar com ele.
Não conseguimos consertar o rádio e Gonzáles começou a mostrar impaciência com nossa situação, sem comunicação, sem seu whisky, e perdidos no meio da floresta.
Certa manhã quando eu saia para caçar com olhos de coruja, a tribo foi surpreendida por visitantes que trouxeram presentes e foram recebidos na grande tenda. Quando deixaram a aldeia, o tambor de barulho de trovão bateu, convocando todos os membros da tribo para uma reunião . Olhos de coruja me puxou pela mão e fomos sentar em torno da grande fogueira, para ouvir o que seu pai tinha para dizer a seu povo. Gonzáles se juntou a nós.
Sempre ao lado do feiticeiro, o chefe da tribo falava apontando o céu, o avião, e algo relacionado a meu co-piloto e eu, pois apontara em direção a nós. Quando a reunião terminou, o silencio da retirada demonstrava descontentamentos entre os nativos, e o motivo era para nós um grande mistério. Olhos de coruja nos levou para fora da grande tenda, e a seguir nos dirigimos floresta adentro, até um local em que o menino achou seguro para relatar o que ouvira na reunião.
Depois de se abaixar e afastar galhos e folhas, o menino começou a desenhar os últimos acontecimentos. Desenhou índios que não eram da tribo, deduzimos que eram as visitas que a tribo tivera esta manhã. Quando olhos de coruja percebia que entendíamos o que ele nos comunicava, apagava o desenho para fazer um novo, sempre ligado ao anterior, como se estivesse montando uma história. No final, depois de estarmos ali por um longo espaço de tempo, tínhamos uma conclusão formada sobre os acontecimentos daquele dia. Os índios visitantes pertenciam a dois povos visinhos, que sabedores da nossa presença entre os onças pintadas, acharam por bem alertar a tribo amiga sobre os perigos existentes com nossa hospedagem. Segundo eles, homens brancos portando armas de fogo estiveram em suas aldeias, eram espíritos maus, que abusaram da hospitalidade intimidando-os com as armas, e quando se foram, deixaram doenças que seus curandeiros desconheciam.
Na reunião com seu povo, grande chefe falou da confiança que tinha em nós, falou da crença nos sonhos de espírito que fala, mas mostrou-se preocupado com a demora dos acontecimentos.
Voltamos para a aldeia e olhos de coruja deixou-me a sós com Gonzáles. Depois de um longo silêncio onde tentávamos digerir nossa realidade, Gonzáles falou:
_ Temos que sair daqui ! Nada falei e ele continuou:
_ Sei que você não pode fazer uma longa caminhada por causa de sua perna, mas eu deveria tentar, os índios visitantes falaram de homens brancos que vieram e se foram, isto quer dizer que eu devo seguir a trilha ou a direção que eles tomaram depois que deixaram a aldeia deles. Eu não tinha muito o que falar, nossa situação era complicada, e o medo de piorar as coisas me deixava mudo, mas a decisão já estava tomada. Chamamos nosso amiguinho e pedimos para ele nos fazer companhia até a presença de seu pai.
Tendo olhos de coruja como nosso interlocutor, explicamos a necessidade de Gonzáles ter que deixar a aldeia para buscar ajuda, do contrário, o grande pássaro jamais levantaria vôo. Grande chefe concordou, depois de ficar sabendo que eu ficaria na aldeia.
Na manhã seguinte meu amigo partia, levava alimentos que daria para atravessar o Saara, cheguei a brincar com ele por causa disto, mas meu coração estava aflito, ficaria só entre aqueles nativos e atormentado pela incerteza do meu futuro. Abracei meu amigo e ele se foi.

Questão vital

Com exceção de olhos de coruja, os membros da tribo me tratavam com frieza e desconfiança, por isto me apeguei 'a companhia do menino como um náufrago se agarra em sua bóia salvadora. Passávamos o tempo todo junto, com ele me ensinando palavras de sua língua e eu ensinando espanhol pra ele. Não me envergonho de dizer que ele aprendeu as lições melhor do que eu, por isto optamos por falar em espanhol em nossas conversas.
A aproximação resultou numa verdadeira amizade, e os instintos paternos começaram a se revelar dentro de mim, ele estava se tornando pra mim o filho que eu não tinha, meu coração o estava adotando.
Quatro luas se passaram e nenhum sinal de Gonzáles, perdi as esperanças, caso ele tenha conseguido chegar até a Bolívia, já teria o tempo suficiente para dar sinal de vida.
As reuniões da tribo começaram a ser freqüentes e sem minha participação. Olhos de coruja tentava me preservar de noticias ruins, e mesmo quando eu indagava sobre os motivos de tais reuniões, dizia que eram coisas sem importância. Numa tarde, quando acontecia uma destas reuniões, eu fazia algumas averiguações no avião apenas para passar o tempo quando meu amiguinho chegou correndo, chamando por mim:
_ Yuan, Yuam (ele não conseguia dizer Juan), precisamos falar. Estava nervoso e falava depressa, pedi que se acalmasse, pois do contrário não entenderia nada, mas quando consegui entender um frio correu pela minha espinha. Na reunião falou-se de um novo sonho de espírito que fala, onde a mensagem dizia que eu deveria ser mandado de volta para a grande aldeia e ser substituído por um outro enviado, que conduziria a tribo para seu destino final. Ficou decidido que eu seria queimado, pois os onças pintadas pretendiam me devolver para o espírito pai em forma de fumaça. Olhos de coruja me aconselhava a fugir, mas fugir não estava em meus planos, ainda mancava, e teria que enfrentar uma floresta com todos os perigos possíveis em um mundo selvagem.
E tudo por causa do sonho de um maluco, a situação era péssima, ficar e morrer, ou fugir só para adiar o inevitável. Não, fugir não, mas morrer assim de graça muito menos, tinha que haver uma saída, era minha vida em troca de uma viagem, uma viagem..., uma troca. Uma vertigem provocada pelo clarão de luz no fim do túnel, e a certeza de ter encontrado a saída, eles queriam uma viagem, eu lhes daria uma viagem, o avião estava carregado delas.
Era preciso fazer a coisa bem feita, eu tinha o remédio que me livraria da morte, mas seu uso tinha que ser controlado, dosado, como qualquer droga receitada num consultório médico. Olhei para olhos de coruja e vi naquele menino de grandes olhos somente a preocupação em ver salva a minha pele, pedi a ele que me acompanhasse até a tenda de grande chefe, e também chamasse por espírito que fala.
Diante dos dois anciões ainda pensei na possibilidade de recuar, mas a sombra da morte me rondando afastou qualquer possibilidade, e eu me apeguei a meu plano salvador. Apontei em direção ao avião e, tendo olhos de coruja como interprete, disse aos velhos que eu lhes daria muitas viagens, viagens para o espírito, os dois se entreolharam e demonstraram não estar entendendo o que eu dizia, convidei-os a me seguir até o avião, e eles o fizeram em silêncio, mostravam-se desconfiados. Apanhei um pacote que deveria ter uns dois quilos de cocaína e chamei-os de volta 'a tenda, achei melhor fazer a demonstração em lugar seguro. Espalhei um pouco de pó dentro de uma folha de mamona, e usando o talo como canudo aspirei uma parte para dentro do nariz, evitei exageros, aquilo era só uma demonstração. A seguir entreguei os utensílios para grande chefe esperando que ele imitasse meu ato, ele o fez, depois foi a vez do velho curandeiro , e quando entregava para olhos de coruja eu interferi._Não, o menino não, isto é coisa só para homens! Eu queria preservar meu amigo.
Minutos de expectativas e a seguir uma eufórica alegria tomou conta dos dois, falavam muito, se abraçavam, e dançavam uma musica ouvida só por eles. Olhos de coruja demonstrava espanto e admiração diante daquela cena grotesca, mas sorriu para mim, ele sabia que de alguma maneira mágica eu me safara da morte. Tive que agüentar algumas cenas de afeto por parte dos velhos, como abraços e até uma tentativa de me fazer dançar com eles, naquele momento, a impressão que tive foi de que doravante eu teria tanto poder na tribo quanto eles. O dia em que eu poderia ter virado cinzas tornou-se um dia de glórias para mim, e pela primeira vez eu me senti bem estando no convívio com aquela gente. Quanto a meu amiguinho, além de sua amizade eu agora tinha uma verdadeira demonstração de admiração e respeito. Eu me sentia feliz com o orgulho que ele tinha quando caminhava a meu lado. Ele estava sentindo o gozo que olhares admirados causam.
Com a introdução das "viagens" na aldeia, achei melhor convencer grande chefe sobre a necessidade de estabelecer regras para o consumo da droga, afinal, a fonte era imensa mas não era inesgotável. Ficou estabelecido, e isto segundo meu pedido, que somente os adultos poderiam fazer uso da droga, eu seria o responsável pelo controle e distribuição, e a segurança do avião seria mantida por guerreiros de confiança de grande chefe. Com raras exceções, e estas entre as mulheres, todos os índios adultos começaram a se drogar.
Com o passar dos dias começaram os descuidos nos treinamentos dos guerreiros, com a caça, com o cultivo, e por conseqüência a comida escasseou.
Cada vez mais o conselho de sábios se reunia para resolver problemas de brigas e desentendimentos entre membros da tribo, mas suas decisões já não eram mais justas.
Minhas preocupações começaram, eu conhecia os efeitos maléficos produzidos pela droga na sociedade de onde vim. Por outro lado, o poder adquirido por mim diante da tribo só era menor que o poder de grande chefe, quanto a espírito que fala, seus sonhos passaram a ser caduquices de velho, e sua importância se restringia 'a cura de doenças cuja eficiência passaram a ser discutidas.
O efeito causado pela introdução da droga na aldeia desvendou diferentes personalidades entre os índios. Como se despidos das mascaras da inocência selvagem, alguns ficavam alegres e sorriam o tempo todo de alguma coisa engraçada criada por cérebros dopados, outros viviam sonolentos e preguiçosos, mas os piores estavam entre os que se tornavam violentos.
A tribo nunca mais seria a mesma depois da descoberta do fruto proibido, e o respeito pelas leis e crenças, agora estavam sendo trocados por ideais de rebeldia.
Numa tarde, um guerreiro forte e saudável sentiu-se mal após fazer uso de sua dose diária, espírito que fala foi chamado para socorrê-lo, mas nada pode fazer diante daquela estranha doença que fazia com que o índio espumasse pela boca como um animal raivoso, dali a pouco estava morto. Revoltados, os membros da tribo culparam o velho curandeiro, um guerreiro como aquele só morria em combate. Fui ver o morto e percebi logo a causa da morte, overdose! Perguntei-me como isto foi possível. As doses fornecidas eram suficientes apenas para que os índios tivessem suas viagens sem ultrapassarem o ponto que eu consideraria crítico. Alguma coisa estava errada, e a resposta estava no avião. Faltavam alguns pacotes, e eu tinha certeza de que aquele índio não fizera o trabalho sozinho, corri para a tenda de grande chefe para contar o ocorrido, ele tinha inalado sua dose, estava alegre e cordial, mas não deu importância ao que falei.
A tribo estava contaminada, com exceção das crianças e de algumas mulheres, os onças pintadas não passavam de um povo drogado. Decidi que no dia seguinte suspenderia a dose diária, convocaria uma reunião onde ameaçaria cancelar o fornecimento, caso os culpados pelo furto não se apresentassem, na verdade era apenas um ato de desespero, eu sabia que a situação tinha fugido do controle.
A reunião não chegou a acontecer, quando a noite se aproximava a aldeia foi atacada por uma tribo nômade.

O destino dos onças pintadas

Confusão, gritos, e uma correria sem rumo, também comecei a correr, corria procurando por olhos de coruja, encontrei-o lutando como um bravo, como todos os meninos da aldeia ele lutava por um ideal sem glória. Peguei meu amigo por um dos braços e tentei tirá-lo do meio da batalha, dizendo que tudo aquilo era inútil, os onças pintadas seriam aniquilados, e a única possibilidade de salvação era fugindo em direção a mata fechada. Ele me olhou e disse que um onça pintada jamais fugia de uma batalha, não tive alternativa, eu era maior e mais forte que ele, e não tinha os mesmos escrúpulos diante de um ideal, abracei-o por traz e o carreguei em direção a floresta.
Depois de pontapés, mordidas e beliscões, consegui levar meu amigo para o mais longe possível da aldeia, e vencido pelo cansaço e pela dor na perna, parei debaixo de um pé de jatobá e depositei meu fardo no chão. Por mais que estivéssemos longe da aldeia, era possível ouvir os gritos desesperados dos poucos onças pintadas que ainda lutavam por suas vidas, olhos de coruja estava em silêncio, tentava entender o que se passava através dos ouvidos.
O manto da noite cobriu a floresta, e o silêncio quebrado por aves e animais noturnos rodeavam ameaçadoramente um homem e um menino perdidos em seus pensamentos. Eu pensava numa maneira de voltar a Bolívia levando o filho que a casualidade me dera. O que ele pensava só Deus sabia. Lutei para ficar acordado pois tinha medo do que se passava na cabeça de meu amigo, mas o dia foi longo, e o cansaço, em qualquer minuto entre as horas da madrugada me abateu e adormeci. Dormi o suficiente para ter pesadelos com índios nômades que levavam meu filho! Acordei possuído por terríveis pressentimentos e procurei por olhos de coruja sem encontrá-lo. Corri sem direção gritando por seu nome, até avistá-lo sentado em um tronco caído, olhando em direção ao infinito. Percebendo minha presença ele se virou e me cumprimentou para depois dizer:_"Yuan, você pode me ajudar a mandar meu povo para a grande aldeia?" Respondi que sim, sabia o que ele queria dizer com aquele pedido, mas pedi a ele para esperar um pouco mais, poderíamos nos defrontar com os inimigos se fossemos naquele momento, ele concordou.
Durante o dia ele não comeu, mas conversou bastante, perguntou-me como era o lugar de onde eu vim e como era viver neste lugar. Me animei, inventei um paraíso onde os homens adquiriram muitos conhecimentos que fizeram melhores as suas vidas, sem sofrimentos e sem dores, e devido às leis que eram respeitadas, eles viviam em paz. Olhos de coruja parecia me ouvir sonhando, seus olhos se fechavam para buscar na imaginação alguma coisa que o fizesse ter idéia deste lugar mágico.
O dia terminou e eu me sentia cansado, olhos de coruja parecia ter adquirido o dom de viver acordado, não dormia e no entanto parecia não sentir a falta de sono. Tive medo de retornar a aldeia, mas o menino acreditava não haver mais perigo, pois havia como que uma espécie de acordo entre os nativos com relação à guerra, onde os vencedores se retiravam de cena, para que os derrotados enterrassem ou dessem a seus mortos o destino segundo as tradições de suas tribos.
Foi um verdadeiro massacre, adultos e crianças mortas se misturavam em um mar de sangue, alguns morreram lutando, mas a maioria aceitou a morte sem vontade de lutar pela vida. Lágrimas rolaram pelo meu rosto, mas olhos de coruja parecia um ser sem alma, com frieza caminhou por entre seu povo, agora reduzido a um monte de cadáveres, até encontrar o corpo de grande chefe. Respeitei o silêncio de meu amigo que foi longo, e quando ele se dirigiu para um amontoado de galhos, onde antes era a tenda de espírito que fala, eu o vi procurar por algo que deveria estar entre os pertences do velho feiticeiro, que agora poderia estar sonhando o seu ultimo sonho.
Começamos a juntar os corpos, eram tantos que tivemos que fazer vários amontoados, percebi a falta das mulheres jovens, mas olhos de coruja me explicou que a tribo vencedora levou-as como troféu de guerra.
Passamos a noite toda queimando os cadáveres, usei o combustível que restava no avião para a tarefa de mandar os onças pintadas pra junto de seus antepassados.
Pela manhã nos retiramos, os vencedores deveriam tomar posse do lugar se esta fosse suas vontades. Caminhamos pela floresta sem destino, eu sentia o cansaço como um enorme e pesado fardo a ser carregado, mas não sentia sono, na mente, à vontade de sobreviver e chegar até a Bolívia com olhos de coruja, mas como...? Eu não sabia. O vento contrário trazia sons para nossos ouvidos, sons da floresta, mas também trouxe o som de motor de avião, paramos, escutamos e tivemos a certeza, um avião sobrevoava a área, corremos de volta para aldeia, pensei em Gonzáles, finalmente ele voltou.
Ao chegar na clareira onde antes existia a aldeia o avião ainda não havia pousado, fazia vôos de reconhecimento. Era difícil de acreditar, finalmente eu ia sair daquele lugar, recomeçar a minha vida onde ela havia parado a não sei quanto tempo atrás. O avião pousou e seus dois tripulantes desceram, Gonzáles não estava entre eles, mas reconheci meu contratador, cumprimentei-o temeroso, mas ele não parecia estar nervoso como quando tentei falar com ele pelo rádio.
Meu contratador falou que Gonzáles conseguiu chegar até a Bolívia e o procurou, estava com malária, e o tratamento tardio não conseguiu salvar a sua vida, mas viveu o suficiente para falar do acidente e indicar num mapa da região o lugar provável onde o avião pousara, eles nos procuraram por vários dias, estavam para desistir quando hoje avistaram a fumaça da fogueira que fizemos para queimar os corpos dos índios mortos.
O verdadeiro motivo que levara nosso contratador a vir, não foi para me resgatar como percebi depois. Além de recuperar a carga, ele também veio para fazer um reconhecimento do lugar, segundo Gonzáles lhe havia dito, a clareira ficava dentro da zona morta, e era um ótimo campo de pouso. A idéia do traficante era usar o local como base de refinamento de cocaína, ele tinha contatos de fornecimento da droga na Europa, e tencionava usar o lugar como inicio de uma rota com escala no Suriname rumo a Holanda.
Para mim o que ele pretendia fazer não tinha importância, eu queria mesmo era sair daquele lugar, levar olhos de coruja e abandonar aquele tipo de trabalho, quem sabe conseguiria adotar o menino como filho.
Ajudamos a colocar o que sobrou da droga no avião do contratador e começamos os preparativos para partir, quando olhos de coruja me disse:_"Yuan, eu não vou!". Não entendi o que ele quis dizer com aquilo, e me aproximei para perguntar:
_ Como? O que é que você está falando? Aqui não resta mais nada, seu povo já não existe mais, como você viveria?
_ Vou me juntar a meu povo! Disse isto e mostrou-me uma espécie de vasilhame feito de bambu, que agora estava vazio, perguntei o que significava aquilo e ele respondeu que bebera do mesmo veneno que tirou a vida de espírito que fala.
_ Peço-lhe como favor que meu corpo seja queimado, para que meu espírito suba para a grande aldeia onde encontrarei com meu povo, e onde a profecia do sonho de espírito que fala se cumprirá, os onças pintadas viverão em paz e felizes como uma grande nação.
Eu conhecia o veneno, era tão mortal quanto o veneno de uma cascavel, sua ação demorava o tempo necessário para se misturar na corrente sanguínea e atingir o coração provocando um ataque fulminante. Abracei meu amigo e senti meus sonhos se desmoronarem, sentei-me no chão com ele em meus braços e acariciando seus cabelos comecei a chorar. Olhos de coruja não gostou da minha atitude, disse que um guerreiro não devia chorar, pediu-me que novamente falasse do lugar de onde eu vim e onde voltaria a viver. Contei-lhe então sobre a vida no povoado, falei das montanhas, das florestas e rios do lugar, e, num instante em que o sonho se materializa numa terrível realidade, percebi que falava sozinho, meu amigo, meu filho estava morto. Fechei aqueles olhos grandes que jamais se abririam e cumpri com a promessa feita a ele em seu último desejo, a seguir entrei no avião e deixamos o lugar, sem que eu tivesse a coragem de olhar para trás.

Final

Depois dos acontecimentos se transformarem num passado distante, ainda olho o céu nas noites estreladas e converso com meu filho. Numa destas noites ele me disse:
_Yuan, viver aqui na "grande aldeia" é tão bom quanto sonhar um sonho feliz.

FIM

BORBOLETAS AZUIS



Introdução

Sentei-me num banco em frente a catedral da Sé e esperei. Enquanto esperava admirava a brincadeira do vento com as folhas das árvores, alguns pombos perseguiam insetos, então ele apareceu. Passou quase rente aos meus pés, pude sentir o cheiro da miséria que se desprendia de seu corpo sem higiene e de suas roupas sujas e maltrapilhas. Olhava fixo para o chão, mas pude reconhecer alguns traços de sua fisionomia que me fizeram acreditar que aquele menino era, sem dúvida nenhuma, quem eu procurava. Esperei algum tempo antes da abordagem, queria olhá-lo e tirar algumas conclusões.
Ele se acomodou em um dos degraus da escadaria da igreja ficando de costas para a porta de entrada da casa de Deus, mas parecia não se dar conta disto. Resolvi me aproximar, mas antes que o fizesse alguns meninos apareceram e foram em sua direção. Conversaram, sorriram entre uma brincadeira e outra e se foram, deixando-o só. Aproximei e perguntei o seu nome, ele sequer me olhou para responder que não era da minha conta. Falei que era sim, pois estava ali a pedido de seu pai que era meu amigo.
Quando o menino ouviu falar de seu pai, levantou o rosto e pude ver em seu olhar um brilho intenso de alegria. Por alguns instantes ele me encarou, seus olhos procuravam na minha imagem a verdade do que eu dissera.
__ "Eu não conheço o senhor como sendo um dos amigos de meu pai, o que deseja de mim?"
Percebi em suas palavras os resquícios de uma educação que sempre marcou a vida de seu pai, o respeito pelos mais velhos ao me chamar de senhor, e a maneira de falar que só possuem os portadores de uma jóia rara, uma família.
Convidei-o a tomar café em um dos bares da praça, naquela hora, por volta das onze, ele deveria estar com fome, mas agradeceu-me recusando. Sentei-me a seu lado tentando criar um clima de intimidades. Percebi a batalha travada por ele para não ceder a tentação de confiar em mim.
__ "Como está meu pai?" Perguntou-me.
Respondi que estava bem, omitindo, ou pelo menos tentando mascarar a verdade.
__ "Quando poderei vê-lo?"
Sua pergunta me incomodou, o que eu menos queria naquele encontro era sair dele com o aperto no peito que sentia naquele instante, por isso menti dizendo que em breve ele o veria.
Para evitar novas perguntas comecei a falar sobre seu pai e o motivo de estar ali. Procurei nos bolsos de meu paletó e encontrei a carta que deveria ser entregue a ele, perguntei-lhe se sabia ler, respondeu que sim mas não leu, pareceu esperar que eu fosse embora pra ler na intimidade a mensagem de seu pai. Despedi-me prometendo voltar dali uma semana, com mais tempo para conversarmos. Marcamos para o mesmo lugar o encontro.

Homens de amanhã

Nunca me preocupei em saber a sua idade, mas tenho a impressão de que deveríamos ter a mesma, pois em todas as lembranças que tenho de minha infância ele está presente.
Sua mãe dona Geralda foi minha mãe de leite, portanto éramos irmãos de leite. Vivíamos em uma fazenda do tamanho do mundo, e só descobrimos que o mundo ia além dos horizontes vistos por nós quando entramos na escola. Crescemos aprendendo a gostar das mesmas coisas, embalados pelas vitórias do bem sobre o mal narrado por senhor Ferreira, seu pai, um exemplo de generosidade.
Nossas famílias eram muito religiosas, não faltávamos um domingo na missa. Fizemos os catecismos juntos, sabíamos os dez mandamentos na ponta da língua e, na medida do possível vivíamos de acordo com eles.
Na infância o tempo demora mas passa, brincadeiras são deixadas de lado, desaparecem os meninos e surgem os homens, enquanto a vida vai se encarregando de iniciar uma separação. Meu amigo Dunga entrou para o coral da igreja, tinha uma linda voz de cantor de ópera , fazia parte dos "Marianos", composto por homens. Um outro coral formado por mulheres se chamava "Filhas de Maria" , foi aí que ele conheceu Nice. Dons iguais, gostos iguais, noivaram e casaram ali, na mesma igreja onde seus sonhos se encontraram. E o casamento foi lindo, ao som de cânticos dos seus colegas de coral.
O cordão de ligação que nos unia fora rompido, mas ainda existia o gostar que sempre fica nos corações de quem viveu uma grande amizade. Alguém disse que uma infância amorosa é o chão que caminharemos até a velhice. Nossas vidas seguiam por caminhos diferentes, mas sempre guiadas por valores morais fundamentadas em uma rica educação.
Logo nasceu o primeiro filho, primeiro e único, que veio inundar de alegrias não só o casal, mas todas as pessoas que os conheciam, pois sabiam como eram merecedores da bênção que os céus lhes proporcionava. Eu vivia a minha vida assistindo com alegria a vida feliz de meu amigo.
Mas um dia todos nós temos que crescer, bater asas, partir...Ele veio em minha casa, veio só, busquei em seu semblante o motivo da visita, perguntei logo pela família e ele me acalmou dizendo que Nice e o menino estavam bem, na verdade estava ali para me comunicar que ia se mudar da fazenda, tentar uma sorte melhor em São Paulo. O menino estava crescendo, Dunga já se preocupava com seu futuro, na cidade grande segundo soube, existiam escolas que ensinavam as crianças a partir dos três anos de idade, a idade de Júnior.
Despedimo-nos como dois homens chorões, dei a ele uma medalha com a imagem de nossa santa protetora, presente de minha avó para ter sorte e proteção, então ele partiu, e a distancia entre nós se tornara imensa.

Noticias de meu amigo

A primeira carta mostrava o deslumbramento com a cidade grande e a dificuldade para se arranjar um emprego. Na segunda as novidades vieram apenas no vocabulário usado por ele, palavras novas que aprendera com o povo de lá. As cartas cada vez menos eufóricas foram escasseando, a última dizia que conseguira um emprego, trabalharia como faxineiro numa grande metalúrgica durante doze horas por dia.
Na fazenda, seguindo o curso de meu destino também atendi o chamado da cidade grande, no calendário desta época iniciava os anos oitenta...
Quando chegamos em São Paulo já tínhamos casa comprada através de parentes num bairro da capital, e apesar das dificuldades de inicio as coisas correram bem, arranjei emprego numa fabrica de cadernos e a noite fazia um curso de supletivo para completar o segundo grau. Numa tarde, após chegar do trabalho, minha mãe entregou-me uma carta , corri os olhos em busca do remetente e verifiquei que era de Dunga. Na carta ele dizia que fora promovido na empresa, agora seria guarda noturno, e apesar do trabalho ser à noite o salário era melhor, isto o ajudaria a pagar a escola particular do menino, convidou-me a visitá-lo e prometi a mim mesmo que o faria no próximo final de semana.
Dunga morava em uma vila do bairro do Jaçanã, não foi difícil encontrar seu endereço. Fui recebido com festas por Nice que correu pra chamá-lo, nos abraçamos, e um turbilhão de palavras foram ditas por nós. Ele estava feliz, as coisas melhoraram depois que começou a trabalhar a noite, Júnior estava matriculado numa escola particular perto da casa, falou com orgulho do filho, ele era inteligente e esforçado, valia o sacrifício de uma boa escola. Senti o pesar de ter que ir embora, mas ele trabalharia naquela noite e precisava descansar, minha visita não poderia se prolongar por mais tempo. Prometi que o visitaria sempre que possível.
Duas semanas após minha visita, um recado da recepcionista da empresa onde eu trabalhava dizia para que entrasse em contato com um amigo que não se identificara, mas que eu saberia de quem se tratava. Não tive dúvidas quanto á identidade do amigo, e a possibilidade de falar com ele seria através de uma nova visita.
A casa estava fechada, visinhos disseram que não tinham informações sobre os moradores, talvez estivessem viajando. Voltei outras vezes sem ter sucesso, ninguém tinha noticias deles, na ultima tentativa encontrei um grupo de mendigos que ocuparam o local depois de perceberem que ele estava abandonado. Se fosse uma viagem ela teria sido bem longa, pois durante sete anos fiquei sem notícias de meu amigo e sua família.

Reencontro

Graças a Deus eu já podia brindar o meu sucesso profissional e pessoal, o esforço e dedicação valeram a pena, sou proprietário de um escritório de contabilidade e emprego quatro funcionários, posso até dizer que "sou dono do meu nariz" . Constitui família com uma mulher dedicada, temos um casal de filhos maravilhosos e, com freqüência viajamos com meus pais para a fazenda onde nasci.
Numa tarde, no final de expediente do escritório, o telefone tocou, do outro lado alguém se identificara como sendo Dunga, duvidei, a voz era diferente, quem quer que fosse ligava de um orelhão e pedia para falar comigo, final de ficha, a ligação caiu e eu nada podia fazer a não ser esperar. O pedido era estranho, amigos não solicitam entrevistas, portas não possuem chaves para a amizade, mas quem quer que tenha ligado deveria estar vindo para o escritório. Senti medo, os funcionários tinham ido embora, pensei em ligar para a policia mas descartei a idéia, o que iriam pensar de uma pessoa que liga para a policia porque está com medo de uma visita que pode ser de um amigo? Decidi fechar o escritório e esperar do lado de fora, um pouco afastado, onde esperava e ao mesmo tempo vigiava.
Numa esquina, sem saber de que lado ele viria, eu olhava para todos, principalmente para a porta do escritório. Alguém parou, percebendo o escritório fechado tentava olhar através de alguma fresta, olhou em torno, procurava por alguém, neste momento me aproximei e perguntei o que ele desejava.
__ "Não me reconhece?" Perguntou ele.
Era isto que meus olhos tentava naquele momento, enquanto meu cérebro indagava quem seria aquela pessoa que parecia não querer ser identificada.
__ "Podemos conversar?"
Uma ducha gelada caiu sobre meu cérebro confuso, o medo escravizava minhas palavras e eu sentia que precisava emergir daquele momento e controlar o impulso de fugir.
__ "Desculpe, eu o conheço?"
Seu rosto demonstrou um sorriso amargo, e enquanto se despia do boné que cobria sua cabeça e o dobrava com as mãos eu o reconheci, Dunga, meu amigo! Meu Deus, como estava mudado! Ninguém envelhece tanto em tão pouco tempo!
O alívio do reconhecimento me fez pedir desculpas, abri o escritório e o convidei 'a entrar, minhas atitudes formais me envergonharam, aquele homem não era um cliente, era um amigo querido, um irmão que estava distante e agora voltava. Perguntei-lhe o que havia acontecido, eu indagava com a pergunta sobre os sete anos sem notícias, a aparição repentina como um estranho, e a aparência de quem envelhecera vinte anos num período de sete. Ele olhou-me nos olhos e buscou na alma as palavras para narrar-me sua história, perguntou-me antes se eu tinha tempo e disposição para ouvi-la, pedi a ele alguns minutos para um telefonema pra minha esposa, e também para comprar café e lanches na padaria, a noite seria longa...
Depois de um cigarro, Dunga começou a contar uma história que, segundo ele, traria respostas para minhas perguntas.
__ "História de desgraças meu amigo, que infelizmente aconteceu comigo, você é livre para qualquer julgamento e, tendo você como um verdadeiro irmão, saberei respeitar o seu veredicto."
Depois de um silencio onde páginas de um passado recente são revistas ele iniciou a narração:
__"Ao escrever aquelas cartas pra você, tentei passar uma imagem de que tudo estava bem, mas a verdade era outra, eu não estava feliz. O motivo de omitir a verdade foi pensar que as coisas mudariam, e eu pudesse realmente ser feliz ao lado de minha família. Quando consegui o emprego de faxineiro na empresa onde trabalhei, eu já estava para desistir da procura e voltar para a fazenda, pois mesmo quando uma vaga existia, me era negada. A princípio pensava em falta de sorte, mas a verdade um dia se mostrou fria e cruel, sou um negro! A porta que me foi aberta não era só uma oportunidade, mas uma condição imposta para pessoas de minha cor. Até aí tudo bem, era um trabalho tão digno como outro qualquer, mas quantas pessoas você conhece que fazem este tipo de trabalho e nele encontra uma realização profissional? Por acaso conhece alguém que diz com orgulho que é o melhor faxineiro da empresa onde trabalha? Pois eu consegui dizer isto depois de me destacar entre os demais, e algum tempo depois, quando surgiu uma vaga de guarda noturno, a oportunidade de promoção apareceu, e o departamento de recursos humanos me escolheu para a função."
Neste momento de sua narrativa eu o interrompi, minha cabeça estava confusa, as respostas que eu esperava não vinham, respostas que nossa amizade exigia, como o motivo da distância e o tempo sem notícias. Dunga falava de coisas relacionadas à cor da pele, coisas que para mim nada significavam, confesso que nunca havia pensado nisto pelo simples fato de nunca ter visto a diferença, não da maneira como ele me apresentava. Para mim, somos todos diferentes, isto nos torna únicos, cada ser, cada coisa, cada cor...e este mundo de diferenças não pode ser olhado com frieza e desconfiança, pois isto nos tornaria cego diante da beleza da variedade. Foi com a clara intenção de obter minhas respostas que perguntei onde situava nossa amizade em suas descobertas, pois até então ele não demonstrava a sua importância.
Dunga compreendeu meus argumentos, olhou-me como um pai olha para seu filho inexperiente, de alguém que conhece a vida e olha para uma criança adormecida em sua inocência e falou:
__ "Eu ti conheço e por isto ti entendo. Aliás, ti conheço melhor do que a mim mesmo hoje, posso ti dizer em sã consciência que você faz parte das coisas boas que aconteceram em minha vida. A verdade é que lá na fazenda fomos iguais, não porque eu ou você quiséssemos, mas por que éramos crianças, as coisas que vieram depois não tinham como ser evitadas, fazia parte do crescimento de cada um, e se hoje eu vivo o drama do viver, você, a partir de agora viverá o drama do sentir."
__ "A propósito, sabe qual era meu apelido entre os colegas na empresa onde eu trabalhava? Era azulão, senhor azulão, pois segundo eles eu era tão preto que chegava a ser azul.
__”O gerente de produção da empresa era um homem arrogante e preconceituoso, humilhava seus subordinados e gostava de fazer piadinhas sobre os negros da empresa, dele recebi a alcunha de senhor Azulão. Este homem tinha o costume de ir á noite na empresa para o que chamava de inspeção de rotina, entrava e saia sem ao menos me cumprimentar, fazia questão de abusar da autoridade que seu cargo lhe conferia, até ai tudo bem, suas provocações jamais iriam desviar-me da conduta de tentar fazer o melhor no meu trabalho. O problema, é que ele sempre levava alguma coisa quando ia embora, confesso que tive até medo de pensar que ele pudesse estar roubando a firma, mas tudo indicava para meu desespero que era isto que estava acontecendo.
__”Eu não sabia que atitude tomar ou a quem recorrer. Deveria levar minhas desconfianças ao dono da empresa, eu, um simples empregado de fábrica, um pião como se costuma dizer? A verdade é que mesmo sem encontrar resposta para tal pergunta, não conseguia conviver com algo que para mim estava errado. Cheguei a conversar com Nice, e ela tentou me aconselhar de alguma maneira, mas só conseguiu me passar o medo que tinha de que eu perdesse o emprego. Eu não conseguia mais dormir direito, carregando o peso de minha omissão diante de algo que para mim tinha enorme gravidade, mas, como tudo na vida tem um final, com as coisas erradas não seriam diferentes."
__ "Numa noite em que cheguei para trabalhar, encontrei este gerente a minha espera, sem muita explicação me disse para voltar pra casa e comparecer no dia seguinte no departamento de recursos humanos, eu estava sendo dispensado, um outro funcionário já ocupava o meu lugar, um branco, fez questão de dizer."
Neste momento da narrativa, um profundo suspiro abandonou o peito de meu amigo, e eu percebi em seu olhar que ele estava distante, confrontando-se com algo terrível. Há sentimentos maiores que o recurso limitado das palavras, e um silencio que diz tudo, dispensando o uso delas tomou conta de mim, meu amigo percebendo este momento continuou a sua história:
__ "Conversei com Nice aquela noite inteira, sem conseguir chegar a uma conclusão que explicasse a demissão. No dia seguinte, ao comparecer na empresa, sem muito rodeio a encarregada do departamento me disse que eu estava sendo "convidado" a me demitir, motivo? Roubo! Eu não estava sendo acusado de roubo, não havia provas para isso, mas o fato é que o roubo acontecera e tudo indicava que foi no período da noite, no meu turno de trabalho. Se eu não assinasse a demissão voluntária, o caso seria levado 'a policia, já sendo acusado formalmente pelo roubo. Naquele momento senti desaparecer as chances de minha família viver num mundo melhor, mais justo e solidário."
__ "Desesperada com a injustiça e ciente das dificuldades que teríamos para sobreviver, Nice aguardou o momento em que saí de casa na tentativa de encontrar um novo emprego para ir até a empresa. Em sua inocência imaginou que contando a verdade para meu ex-patrão, as coisas seriam resolvidas, e o mal reparado. Quando retornei da procura mal sucedida de emprego, ela me contou a sua atitude. Apesar de suas justificativas eu a critiquei, e rezei para que conseqüências maiores não recaíssem sobre nossa família. Mas os meus temores se confirmariam, e naquela mesma noite, do dia que se tornaria maldito pra mim, enquanto eu contava uma história para meu filho dormir, daquelas que meu pai contava para nós dois você se lembra? Alguém bateu em nossa porta, Nice foi atender e então ouvi um grito: __ "Morra sua negra desgraçada", a seguir o estampido de um tiro, corri até a sala para encontrá-la caída, o causador daquela cena já estava longe."
__ "Meu amigo! Que Deus me perdoe pelo sentimento que nasceu em mim naquele momento, um sentimento que só no inferno é possível encontrar outro igual, ódio, de tudo e de todos, ódio até de mim, em minha cabeça uma só palavra martelava minha mente, vingança. Esqueci de meu filho, do mundo, e até de Deus, eu que jamais pensei maltratar até uma erva daninha de uma plantação, pelo simples fato dela fazer parte deste mundo do Criador, agora pensava em matar.”
__ ”Hoje! Sequer consigo explicar direito como foi possível, mas me armei de um punhal, a vingança teria que ser doida, sofrida. Fui até a empresa e esperei, como o carrasco espera sua vitima, quando o momento chegou não escondi minha intenção, me aproximei do algoz de minha nega para manchar minhas mãos com seu sangue e aplacar o meu ódio."
__ "Fui preso no mesmo local da cena do crime, não tinha nada pra esconder, apenas vinguei a minha Nice. As manchetes nos jornais do dia seguinte diziam que um homem desesperado por ter perdido o emprego havia cometido um assassinato."
__ "No meu cárcere fui um hóspede do inferno, convivendo com o pior dos piores, sem meu filho, e sem minha liberdade. Mas eu sou como uma borboleta, não está em mim viver preso, eu respiro a liberdade como elas, e ao saber que no meu cativeiro uma fuga estava para acontecer, não pensei duas vezes pra aumentar ainda mais o meu crime e então fugi. Hoje me encontro aqui, um condenado pela justiça, um fugitivo perigoso, mas com um objetivo, de alguma maneira eu gostaria de entrar em contato com meu filho, dizer a ele que sua vida vale muito, que ele é amado, e principalmente, que ele entenda que sua felicidade só dependerá dele próprio.”
__”Soube que ele esteve confinado na Febem, mas como filho de borboleta ele ama tanto a liberdade quanto eu, e por isso fugiu de lá. Gostaria que ele recebesse uma carta que escrevi, pensei em você para ser meu mensageiro, saberei entender se você se recusar, pois tem que cuidar de sua vida e provavelmente a tarefa que estou lhe atribuindo não será fácil."
Dunga encerrou sua história, mas eu demorei a recuperar-me do pesadelo vivido por meu espírito enquanto ela era narrada. Nos abraçamos, e eu solicitei seu perdão por meu julgamento errado. Propus-me a procurar seu filho, iria até o fim do mundo se fosse preciso, mas ele poderia ficar sossegado, a mensagem seria entregue. Perguntei a ele qual seria seu destino agora, e ele respondeu-me que "entre as escolhas que a vida lhe oferecia, ele escolhia viver, mas como a condição era viver livre, talvez esta fosse a ultima vez que nos encontraríamos.”
O dia estava para amanhecer e Dunga me disse que precisava ir embora, segundo ele, a luz do sol era tão danosa para um fugitivo quanto o é para os olhos de um morcego.

Cumprindo a promessa

Iniciei minha procura na tarde do mesmo dia, começando pela Fundação do Bem Estar do Menor, no bairro do Tatuapé. Defronte ao portão, encostado em um poste da avenida Celso Garcia eu olhava, tentava imaginar como seria a fuga daquele lugar , e quando ela acontecia, para onde iriam os fugitivos? Conclui que os que possuíam algum tipo de ligação como família por exemplo, retornavam pra junto dela, e os demais, deveriam se juntar com outros nas mesmas condições, formando bandos em algum lugar da cidade que oferecesse condições, de como bando, sobreviverem através de pequenos furtos ou até mesmo de esmolas.
Meninos de rua não são conhecidos por nomes próprios, geralmente possuem apelidos inventados por colegas de infortúnios, não seria nada fácil encontrar um Júnior. Foi através de uma senhora, que trabalhava no refeitório de uma das unidades que consegui a informação mais segura de encontrar o menino. Era uma senhora de aparência simpática e bastante tagarela, vi quando ela atravessou a avenida seguindo em direção ao ponto de ônibus na companhia de algumas colegas, abordei-a no momento em que ela se despedia das demais. Ela me informou que se o menino não tinha família e nem um endereço certo para ir, certamente estaria na praça da Sé, pois soubera que parte do grupo que fugiu da ultima vez se encontrava neste lugar. E foi por causa desta informação que fui até a praça da Sé, e encontrei o filho de Dunga.
Uma semana depois de meu encontro com Júnior retornei conforme o combinado, sentei-me no mesmo banco e aguardei por alguns instantes, ele apareceu e se aproximou sem que eu o reconhecesse, estava mudado, com roupas simples mas bem cuidadas, exibia um sorriso quando me falou:
__ "O senhor não me reconheceu, não é mesmo?"
Respondi-lhe com uma grata surpresa que realmente não o reconhecera. Ele sentou-se ao meu lado, e me entregando a carta que seu pai lhe havia escrito me disse:
__ "Gostaria que o senhor lesse, isto mudou a minha vida e a maneira de eu encarar o mundo."
Abri o envelope com cuidado, sabia que aquela carta era a maior riqueza que o menino possuía naquele momento. Escrita com letras grandes e bem feitas, a mensagem dizia o seguinte:

"Filho, quero que saiba que você é fruto de um amor entre duas pessoas que tinham um único sonho na vida, lhe dar uma vida digna, uma vida de respeito, uma vida de amor. Quis o destino tornar impossível a realização deste sonho por nós, mas se foi impossível, não deixou de ser um sonho. Peço-lhe filho querido, como alguém que ti ama com toda a força possível num sentimento, realize este sonho por nós, seja um homem de bem. Esvazie seu coração de toda mágoa e de toda dor que ele contem, para que sobre espaço para o amor e a fé em Deus. A vida não lhe será fácil, mas siga em frente, aprenda com as experiências que os obstáculos vão lhe proporcionar, para que no futuro você sinta orgulho de tê-los vencido."

"De seu pai e sua mãe que tanto ti ama, e que Deus o abençoe."

Olhei para aquele menino homem e, com toda sinceridade e ternura de minha alma, ofereci a minha casa para que ele fizesse dela o seu lar, ela estaria aberta para ele assim como sempre estivera para seu pai. Ele agradeceu-me e disse que talvez um dia seria um hóspede em minha casa, mas não poderia aceitar minha ajuda agora, queria tentar sozinho, se falhasse pouca coisa tinha para perder, mas se vencesse, estaria vencendo por ele e por seus pais.
Quando terminou de falar, Júnior tirou de seu bolso uma caixinha que me entregou dizendo que eu sabia o que ela continha, pediu-me que em caso de ainda encontrar seu pai que lhe devolvesse, pois ele precisaria mais de sorte e proteção do que o menino agora. Abri a caixa e verifiquei que era a medalha que um dia eu dera a Dunga. Devolvi-lhe a carta e ele se foi, como um homem que vai para a luta com a certeza de que será um vencedor. Observei-o enquanto se afastava, meu coração doía, mas era uma dor agradável, se é que existe algo assim, eu estava triste porque uma história de amizade acabava ali, mas ao mesmo tempo assistia a mudança de um menino perdido para um menino com objetivos.

Final

Dunga estava cansado, a policia o localizara e o perseguia. Enquanto teve forças ele fugiu, correu por ruas, desceu e subiu ladeiras, até que chegou em um morro ali pelos lados do bairro de Guaianases. Cansado de fugir ele se deitou sobre a relva, dava para ouvir os cães da policia latindo próximo, a hora de reagir estava próximo, olhou para o céu e avistou pequeninos seres que voavam em sua direção, eram azuis, mais azuis que a imensidão do infinito, seriam anjos?
Não!
Eram borboletas.
Borboletas azuis...

FIM

COISAS DE ANJO


O nome do meu anjo é Aniel. É um bom anjo, mas se intromete demais em minha vida e por causa disto já tivemos muitos problemas em nosso relacionamento.
Eu tenho os meus defeitos, os meus vícios, mas assim como eu os criei, acho que tem que ser eu a acabar com eles. Eu sei que ele quer me ajudar e tudo o que faz é para o meu bem, mas as coisas não são tão fáceis assim, é preciso tempo, tentar várias vezes. Ele sabe que no fundo sou boa pessoa e que quero fazer as coisas certas, se não consigo é porque sou humano, tenho minhas limitações, ele como anjo deveria saber disso e ter mais paciência comigo. Nem sempre os meus erros são intencionais, e mesmo quando eles acontecem, só trazem prejuízos a mim. Eu já pedi várias vezes para ele me dar um tempo, se afastar um pouco e deixar eu me virar sozinho. Ele até que tentou, por uns dois ou três dias ele se afastou, mas depois deste tempo voltou com tudo:
__ Não faça isto, não faça aquilo, você pensou bem no que vai fazer? Isto é perigoso! Cuidado! E assim por diante...
Eu já não agüentava mais, por isto resolvi colocar em prática uma idéia que estava amadurecendo há algum tempo com o intuito de resolver o problema, pelo menos temporariamente. Disse a ele que precisávamos ter um papo sério, para isto escolhi meu lugar favorito, ao lado do jardim, um lugar calmo, silencioso, próprio para se conversar com anjo.
Seu silencio demonstrava preocupação, ele nunca foi assim, pelo contrário, sempre que o chamo para conversar ele vem dizendo um monte de coisas e acabo por deixar de dizer o que pretendo. Mas agora, talvez pelo local ou por adivinhar meus pensamentos (já que anjos têm facilidades para isto), ele nada falou. Resolvi me abrir com ele, dizer o que sentia e pensava, o que eu não queria mais era que houvesse desentendimentos entre nós e por isto queria lhe propor algo.
Seu silencio me permitia continuar:
__ Você sabe do amor que eu tenho por este jardim, sabe o quanto eu gosto de flores, e sabe também que eu gostaria de ter mais tempo para cuidar delas. Ele continuava calado, esperava minha conclusão:
__ Minha proposta é a seguinte: Eu gostaria que você cuidasse dele, que viesse morar aqui e em troca eu venho todos os dias falar das coisas que fiz, das que deixei de fazer, enfim, ti darei satisfações de minha vida, e assim você poderá me aconselhar, dar palpites ou o que achar melhor.
Silencio.
__ Você morando no jardim poderá cuidar dele, conversar com as flores, saber de suas necessidades e depois me contar, tenho certeza de que tem muitas coisas que elas gostariam de me dizer mas por causa de minha falta de tempo elas ficam sem falar. Então, o que você acha?
Passado o tempo necessário para me deixar preocupado, pra meu alivio ele disse que concordava, mas me fez prometer que eu pensaria duas vezes antes de fazer qualquer coisa. Depois de prometer agradeci a sua compreensão e me retirei. Sentia-me leve como uma pena e livre como os pássaros (os que são livres é claro). Quando me aproximei do portão que a partir daquele momento iria separar nossos mundos, ele me chamou. Estremeci, será que ele havia mudado de idéia? E o que era pior, será que na intenção de ser mais útil ele me diria que poderia cuidar de mim e do jardim ao mesmo tempo? Virei-me devagar, desconfiado, com certeza meu semblante demonstrava a insatisfação de encarar um arrependimento de sua parte. Ele apenas demorou um pouco olhando pra mim pra dizer:
__ Promete que vai se cuidar? Demorei pra digerir suas palavras, quando consegui foi pra chegar a conclusão de que os anjos possuem parafusos a menos.
Foi a melhor coisa que aconteceu pra nós dois. Pela primeira vez eu fazia as coisas sem a preocupação de que elas seriam julgadas e criticadas. Certas ou erradas, as conseqüências viriam mais cedo ou mais tarde, porem, eu tinha tempo de observa-las e fazer um julgamento próprio. Claro que cumpri minha parte no trato visitando o jardim todos os dias. Isto passou a ser uma obrigação, eu sabia o compromisso que tinha assumido.
No começo estávamos meio sem graça, parecia que tínhamos vergonha de admitir que agora vivíamos melhor que antes, sem se preocupar tanto um com o outro, ele, em me ajudar, e eu, em evitar sua ajuda. Pelo menos agora estávamos em paz. Eu fazia questão de contar tudo pra ele, nada omitia por não ter motivos pra isso, afinal, tudo que eu fazia era com a consciência de saber que minhas ações, boas ou más, trariam lições que certamente contribuiriam para meu crescimento.
Por outro lado, meu anjo executava um trabalho muito bom, eu não teria feito melhor, ele realmente cuidou do jardim, expulsou os maus fluidos, orientou-me no sentido de mudar algumas plantas de lugar pra melhor adaptação, ajudou na hora dos botões se abrirem, e conversava com todas as flores. O jardim estava lindo e nós estávamos felizes. Minhas flores preferidas no jardim eram as de cor vermelha, claro que não demonstrava isto para as demais, mas as vezes minhas atenções se voltavam mais pra elas e Aniel me chamava a atenção quando isto acontecia.
O jardim era visitado por muitos beija-flores, mas um em especial sempre conversava por mais tempo com meu anjo, confesso que comecei a sentir ciúmes daquelas conversas que ás vezes demoravam uma manhã inteira. Foi minha vez de chamar sua atenção dizendo que se ele ficasse de conversinhas com aquele beija-flor, se descuidaria de suas obrigações. Aparentemente as conversas diminuíram, mas eu desconfiava, cheguei muitas vezes de surpresa e avistei o beija-flor a seu lado, nada diziam, mas tenho quase certeza de que isto acontecia pelo fato de que eles percebiam a minha aproximação.
O beija-flor nada tinha de diferente dos demais que freqüentavam o jardim, era um filhote ainda, seu corpo tinha uma coloração verde musgo entremeado por pontos azuis, e do pescoço pra cima era de um azul intenso, escuro, quase negro, que cobria toda a cabeça. Eu não queria admitir, mas o bichinho era lindo!
Dos defeitos que tenho e dos quais tenho lutado para me livrar, é o fato de ser muito teimoso, ciumento, e orgulhoso. Estes defeitos têm sido motivos para muitas desavenças entre eu e meu anjo, e um desentendimento muito sério aconteceu no final do outono passado. Meu anjo fizera um pedido simples mas que eu questionei por causa do objetivo. Com a proximidade do inverno, ele queria que eu comprasse algumas telhas para cobrir um pedaço do jardim, eu quis saber o motivo para executar este serviço, e ele me disse que era para proteger os beija-flores do frio, pois do contrário eles teriam que procurar um outro lugar onde suas sobrevivências seriam menos sofridas. Eu tinha certeza de que em algum lugar nos fundos do quintal tinham algumas telhas que poderiam ser usadas, mas a verdade é que possuído pelos ciúmes que sentia de sua relação com o filhote, explodi em acusações:
__ Quer dizer então que na verdade você só está preocupado mesmo é com os beija-flores, ou melhor, está preocupado com seu amiguinho particular, e eu que pensava que você deveria cuidar era do jardim. Aniel manteve uma calma que só nos anjos era possível num momento como aquele, e quando falou, demonstrou toda a sua decepção para comigo.
__ Minha preocupação é para com os dois, mas neste momento ela é maior com os beija-flores. Um jardim pode muito bem passar sem eles, mas eles precisam dos jardins para viver. Mas não pense você que esta necessidade faz com que eles se tornem simples parasitas que não retribuem o alimento que retiram das flores. Eles ajudam na distribuição dos polens sobre a terra, limpam o jardim de larvas nocivas de algumas moscas, são verdadeiros médicos que garantem a saúde das plantas. Este amiguinho particular do qual você fala vai além disto, ele me ajuda a cuidar do jardim. Com o bater de suas asas ele limpa as folhas das plantas retirando a poeira que impede que elas respirem, e também faz todo o trabalho material que eu, como anjo, não posso executar. A propósito, além da cobertura eu gostaria que você colocasse alguns bebedouros com glicose, pois como você deve estar ciente, por algum tempo não teremos flores, e por conseqüência faltarão alimentos, já que é delas que eles o retiram.
Seus argumentos eram convincentes, mas não me agradava o rumo que as coisas estavam tomando. Orgulho? Talvez, a verdade é que para mim o jardim continuaria a existir com ou sem os beija-flores. Percebi que Aniel conhecia meus pensamentos, e naquele momento senti o seu desprezo por mim, e descobri da pior maneira possível que até os anjos podem ser magoados.
O inverno chegou, as flores desapareceram, e os beija-flores foram embora, permanecendo apenas o filhote. Contrariando a natureza ele ficou. Nas manhãs de frio intenso eu o avistava tentando se proteger por entre as grandes folhas do crisântemo, Aniel estava sempre a seu lado, agora não faziam mais questão de esconder a amizade entre os dois. No decorrer do dia quando a temperatura se elevava, o pequeno pássaro era visto nos galhos da roseira de rosas brancas, uma planta que sinceramente não era das que eu mais gostava, se ao menos fossem rosas vermelhas...
No meu intimo sentia pena do beija-flor, alem de estar num lugar errado nesta época de frio, não tinha alimento e ainda por cima venerava uma planta cujas flores não tinha graça nenhuma. Como que para castigar ainda mais o pobre coitado, o inverno estava rigoroso, ocorriam geadas quase todas as noites, e o jardim amanhecia esbranquiçado e quase sem vida. O beija-flor parecia resistir por milagre, creio que se não fosse a presença de Aniel ele já teria morrido.
Meu anjo não falava mais comigo, e respondia por monossílabos o que eu lhe perguntava. De minha parte eu esperava que ele fosse um pouco mais flexível, mais compreensível, que me entendesse.
Numa manhã de domingo, ainda vivendo os rigores da estação, fui visitar o jardim levando uma nova muda de flor. Um pé de orquídea, que produzia flores rubras, um vermelho intenso, selvagem, que há muito tempo eu desejava e estava muito feliz por consegui-la. Grandes eram minhas expectativas em plantar uma flor diferente das demais que possuía, gostaria que já estivéssemos na primavera e ela pudesse exibir toda sua beleza. Minha euforia fez com que eu esquecesse dos problemas com meu anjo, até contava com sua ajuda para escolher o lugar ideal para o plantio. Por não avistá-lo quando cheguei ao jardim gritei por seu nome, por detrás dos crisântemos ele respondeu e pude notar sua má vontade em me atender, isto já era o bastante para me irritar, mas quando percebi que ele cuidava do beija-flor, desejei de coração nunca ter conhecido um anjo. Não precisei dizer a ele sobre minha intenção de plantar uma nova flor, ele já sabia, mas a pergunta que fizera me desconcertou.
__ Você gosta mesmo de vermelho não é? Com ironia respondi que não, minha cor preferida era verde, mas esta eu já tinha nas plantas. A nova orquídea que iria plantar era linda, vermelha, uma cor que fica bem em qualquer jardim e arrematei dizendo que o vermelho era a cor da paixão. Ele retrucou que no meu caso era a cor da discriminação, e eu pude sentir com suas palavras que um abismo se formava entre nós.
Depois de executar o serviço que me fizera ir até o jardim, me preparava para sair quando Aniel pediu que eu olhasse para a roseira de rosas brancas, não vi nada mais do que galhos retorcidos de roseira que, talvez por causa do frio, alguns já haviam secado, ele insistiu e eu ia lhe dizer que sua atitude só me fazia perder tempo quando avistei um botão. Na atual circunstancia, em pleno inverno, uma planta tentava gerar uma flor. Fiquei impressionado, mas por orgulho tentei não demonstrar e lhe disse que apesar de tudo não passava de uma rosa branca. Retirei-me do jardim como se estivesse fugindo, precisava pensar, encontrar explicações já que para tudo existe uma.
Como era difícil fazer um anjo entender, e como era difícil eu entender certas coisas. Um botão de rosa numa situação em que até a sobrevivência de uma planta é tão difícil, a sobrevivência de um beija-flor em condições tão contrárias, a verdade é que meu jardim começava a me deixar louco e meu anjo nada fazia para evitar. Havia uma batalha entre eu e meu anjo, mas o poder estava comigo, o jardim era meu e anjos existem para cuidar da gente , não para nos julgar. Resolvi que no dia seguinte as coisas teriam que ser passadas a limpo, e foi o que aconteceu.
Como sempre tive que chamá-lo, não pelo nome, apenas gritei um "hei!", eu não estava muito a fim de intimidades. Consegui segurar a irritação ao vê-lo saindo do esconderijo que as folhas de crisântemo proporcionava, fui curto e grosso:
__ Tenho duas coisinhas pra ti dizer. Primeiro, você deveria me comunicar qualquer coisa diferente ou estranha que ocorresse no jardim, nenhuma planta gera uma flor num inverno tão rigoroso, e no entanto, uma roseira tem um botão, como é possível? Segundo, este beija-flor continua vivendo no jardim, como isto também é possível se não existem flores que possam alimentá-lo? Você poderia me explicar? Minha ultima pergunta foi feita já com um principio de irritação por desnudar minha ignorância.
Aniel estranhou minha irritação e principalmente minha curiosidade, e como se tivesse pena de mim, sorriu com meiguice e me explicou:
__ O beija-flor está se alimentando com a seiva da roseira. Ela se propôs a fornecer a ele o alimento necessário para sua sobrevivência. Percebe? Alguns galhos já estão secos, as vidas deles foram interrompidas pra fazer viver o beija-flor. Quanto ao botão, nada há de excepcional, a roseira apenas demonstra que uma doação nada mais é do que um ato de amor, ela dá o que consome numa fonte inesgotável, tornando-se forte o bastante para gerar um botão.
Minha mesquinha existência se curvou diante daquela grandiosidade, e Aniel não fez questão de me poupar.
__ Se você parasse um pouco para pensar, refletir com o coração aberto sobre tudo o que tem acontecido, entenderia que o significado da vida só está alem de sua compreensão hoje, porque você se apegou a detalhes que só serviram para adiar seu crescimento. Você não é perfeito e sabe disto, do contrário não precisaria de um anjo. Mas tente crescer, tire esta venda de sentimentos mesquinhos que tapam sua visão e impedem que seu coração receba o reflexo de gratidão que brilham nos seres que você ama e ajuda. Aprenda a amar as coisas como elas são, ciúmes, teimosia, orgulhos, são sentimentos que só lhe trarão decepções e fará com que você alimente seu coração com ódios e vinganças. Este jardim é seu, você o criou, deu vida a ele e por isto tem poder sobre ele, poderia muito bem ter expulsado a mim e o beija-flor, mas não o fez, por bondade? Não! Se fosse por bondade teria protegido o beija-flor, teria realmente amado com igualdade todas as flores e com isto me faria feliz.
Eu estava me sentindo mal, me sentia humilhado, o mal que existia dentro de mim estava sendo mostrado como vísceras de algo cruel, queria estar longe dali, sentia vergonha por estar derrotado numa batalha criada na minha imaginação. Sem nada para dizer me retirei, e antes de abrir o portão olhei em direção da roseira, o botão havia crescido, quase para se abrir, e o que era incrível, sua cor era vermelha.
Fiquei dois dias sem visitar o jardim, no principio magoado e triste, me sentindo vítima e com pena de mim mesmo. Mas o sentimento de humilhação cedeu lugar a compreensão, e pude perceber o quanto estava errado. Como pude ser tão idiota a ponto de magoar meu anjo, o beija-flor, a roseira, e quantos seres mais, apenas por não ter sido capaz de amar sem cobranças e sem o sentimento de posse. O arrependimento pelas coisas que fiz e meu modo de agir brotou com sinceridade em meu coração, eu só pensava em correr para o jardim e pedir perdão para o meu anjo. Dizer a ele que eu faria a cobertura para o beija-flor, espalharia bebedouros pelo jardim, me desculparia com a roseira, e amaria todas as flores. Ao me aproximar do jardim, senti-me hipnotizado por uma visão que faz com que a gente se esqueça de tudo em nossa volta. Como um fantoche fui conduzido diante de uma beleza divina, e com o coração disparado consegui balbuciar:
__ Meu Deus, que flor mais linda! O pequeno botão havia se transformado numa rosa vermelha. Um vermelho que parecia vivo, impossível de ser explicado com palavras, mas eu sabia que estava diante da mais linda flor que minha existência observaria.
__ Muito bonita não é? Era Aniel que se colocou ao meu lado para admirar aquela obra tão perfeita.
Quando consegui me desvencilhar do magnetismo daquela imagem deslumbrante, olhei para meu anjo e confesso que se ele fosse matéria eu lhe teria dado um enorme abraço. Meu anjo entendia o que se passava comigo, e as suas palavras, das últimas que ouviria, lembrarei enquanto existir.
__ Eu li o seu coração e visitei a sua alma. Só agora isto foi possível porque o caminho estava aberto, posso te dizer que a beleza dos sentimentos que agora moram em você são tão bonitos quanto a beleza desta flor. Sei que veio se desculpar pelas suas condutas, mas não é necessário, a culpa é da ignorância em que você vivia e ti tornava impermeável para o maior sentimento da alma que é o de amar.
As palavras de meu anjo se transformavam em um balsamo que cicatrizavam as feridas de meus defeitos, e as lágrimas que rolavam pelo meu rosto nunca tiveram um sabor tão doce. Ele me disse a seguir que iria embora, eu já estava crescido e não precisava mais de um anjo, mas ele ainda tinha muitas pessoas para ajudar a encontrar os seus caminhos, como eu encontrara o meu, esta era sua missão. Quando se despedia para ir embora me lembrei do beija-flor e perguntei por ele. Meu anjo hesitou, pela primeira vez desde que ele me fora apresentado num sonho que tive na infância e disse que a partir daquele momento seria meu anjo, ele hesitou.
__ Ele está num bom lugar, fique tranqüilo pois ele não está sofrendo.
__ Ele está morto não é mesmo? Deve ter morrido de frio e eu fui o culpado por isto.
__ Não, ele não morreu de frio, e a morte dele não foi sua culpa. Ele morreu por um ideal que julgou valer a pena, na verdade ele deu a sua vida por amor. Você deve ter percebido que ele sempre estava junto da roseira quando a temperatura aumentava o suficiente para ele deixar o aconchego que as folhas do crisântemo lhe proporcionava. Nestes momentos ele ia para junto da roseira e se alimentava de sua seiva como eu já lhe dissera, em troca, ele doava um pouco de seu sangue para que ela pudesse colorir a sua rosa branca. Todos os dias após o nascimento do botão, ele colocava seu peito de encontro a um dos espinhos e fazia a sua doação.
__ Ele morreu feliz, alcançou seu objetivo como você pode ver.
__ Mas e a roseira, porque queria uma rosa vermelha?
__ Para ti agradar! E ela conseguiu não é mesmo?
FIM